Afinal, se o conceito de antropofagia, conforme proposto pelos modernistas, tem a ver com a deglutição e transformação de referências de uma cultura por outra, não há porque não aceitar que músicos índios assimilem e reprocessem elementos (alimentos) musicais de outras procedências (brancas, negras, orientais).
Diante de casos concretos e específicos surgem muitas vezes questionamentos sobre a verdadeira natureza do processo. Se ocorre efetivamente o que podemos chamar de antropofagia, ou se estamos diante de situações de pura aculturação, ou seja, dominação de uma cultura sobre outra.
O rap índio do grupo Brô MCs aparenta se situar nesse território ambíguo de pertencimento, e o videoclip do rap Koangagua pode servir de base para uma apreciação crítica do assunto.
O rap é entoado no idioma natural dos integrantes da banda. Mas isso em si não garante a primazia da origem índia sobre o gênero dos negros dos Estados Unidos..
Fica o registro para se pensar e aprofundar uma reflexão a respeito. Fica também uma questão à espera de resposta. Trata-se de uma versão pouco referenciada do conceito de glocal (pensar globamente, agir localmente), com o índio aplicando ao seu entorno as concepções da aldeia global? Ou se trata, na verdade, do inverso: a adoção pura e simples do padrão global como modelo a ser seguido na realidade local?
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