Ekoa foi a palavra escolhida por Kleber Serrado (cantor e ocasional ritmista), Bruno Conde (violonista) e Theo Cancello (piano e outros teclados, além de violão),para título do seu primeiro disco, lançado em junho de 2015. Segundo eles, o significado de ekoa, em tupi-guarani, traduz o espírito do trabalho que desenvolvem em conjunto: um lugar onde os amigos se encontram.
O conceito pode muito bem ser estendido para o processo de captação de recursos que possibilitou a produção do disco: o crowdfunding, uma atualização em tempos de internet da ancestral ação entre amigos, considerada aí também a extensão do conceito de amizade que o Facebook popularizou. É um registro que se constrói sobre a sólida tradição da MPB, entendida não como um rótulo mercadológico mas como campo histórico da criação musical popular, que começa com o samba urbano, engloba as linguagens regionais e converge para diálogos profícuos com outras culturas musicais, como o jazz.
A composição José, de Theo Cancello, funciona como tradução exemplar desses cruzamentos e influências, culminando com um solo de piano que faz emergir de um samba chorado um improviso jazzístico no espírito do fox.
José (Theo Cancello) com o trio Ekoa. O disco traz ainda composições de outros autores, no conceito estendido de amigos, que inclui a relação familiar, com as letras precisas de Luiz Cancello, e uma composição de João Carlos Rocha, em franco desenvolvimento de carreira como maestro e compositor, na área da música erudita. O trabalho é marcadamente camerístico, levado ao extremo da dispensa de instrumentos de percussão que seriam usualmente esperados em tal repertório. O que, além de tornar o resultado sonoro mais singelo, ressalta estrategicamente os dons artísticos e a qualidade de interpretação do grupo.
Já foi abordada anteriormente (http://brindemusical.blogspot.com.br/2015/07/tupi-or-not-tupi-questao-antropofagica.html) a aplicação da postura cultural antropofágica no universo da música indígena brasileira. Afinal, se o conceito de antropofagia, conforme proposto pelos modernistas, tem a ver com a deglutição e transformação de referências de uma cultura por outra, não há porque não aceitar que músicos índios assimilem e reprocessem elementos (alimentos) musicais de outras procedências (brancas, negras, orientais). Diante de casos concretos e específicos surgem muitas vezes questionamentos sobre a verdadeira natureza do processo. Se ocorre efetivamente o que podemos chamar de antropofagia, ou se estamos diante de situações de pura aculturação, ou seja, dominação de uma cultura sobre outra. O rap índio do grupo Brô MCs aparenta se situar nesse território ambíguo de pertencimento, e o videoclip do rap Koangagua pode servir de base para uma apreciação crítica do assunto.
Clipe oficial da música "Koangagua", do grupo Brô Mc's, formado por índios bororos do Mato Grosso do Sul. O rap é entoado no idioma natural dos integrantes da banda. Mas isso em si não garante a primazia da origem índia sobre o gênero dos negros dos Estados Unidos.. Fica o registro para se pensar e aprofundar uma reflexão a respeito. Fica também uma questão à espera de resposta. Trata-se de uma versão pouco referenciada do conceito de glocal (pensar globamente, agir localmente), com o índio aplicando ao seu entorno as concepções da aldeia global? Ou se trata, na verdade, do inverso: a adoção pura e simples do padrão global como modelo a ser seguido na realidade local?