sábado, 4 de julho de 2015

TUPI OR NOT TUPI: A Questão Antropofágica do INDIAN INDIE.

A música indígena também procura soluções de produção, divulgação e distribuição independentes para atingir seus públicos bem como potenciais apreciadores da arte musical mais nativa e mais antiga do Brasil, anterior mesmo à formação do país. Indy índio, indian indie.

Um exemplo disso é o trabalho desenvolvido por Wakay (Wakay Cícero Pontes da Cruz), índio da reserva Thá-Fene  (Semente Viva), em Lauro de Freitas, na Bahia, próximo a Salvador.

 
Matydy Ekytoá (Caminho de Todos), composição de Wakay

A composição do vídeo, canção título do álbum Matydy Ekytoá (Caminho de Todos), é cantada no idioma Fulni-ô. A autoria é do próprio Wakay, que atua como músico terapeuta e desenvolve atividades artísticas e educacionais promovendo a cultura de seu povo.

Mas as composições de Wakay não se fecham no universo tradicional. Ele incorpora timbres da tradição europeia, como instrumentos de arco, e padrões rítmicos que revelam influência da música urbana, os modelos de música popular que se instauraram com o advento e expansão das mídias sonoras. Sua música indígena absorve, deglute o pop, introduzindo o balanço da música de mercado na ginga da tradição do índio. 

Não seria isso uma antropofagia às avessas do conceito modernista que tem em Oswald de Andrade um dos principais expoentes?  E não justifica, a propósito, a inclusão de seu poema trocadilhista no título desta postagem? Pois é!

domingo, 28 de junho de 2015

OUTRAS PEGADAS DO ROCK: Desconfigurando o Gênero.

Num de seus históricos programas sobre música, na TV americana, o maestro e compositor Leonard Bernstein iincluiu entre os elementos constitutivos da linguagem do jazz o timbre dos metais, o uso da bateria (drum set) e outros componentes da sonoridade musical. 

Um dos expedientes para repensar gêneros passa pela desconsideração de elementos constituintes típicos como esses. Como ilustração dessa desconfiguração no gênero rock praticado no Brasil, são destacados dois exemplos.

O primeiro vem do Sul, com o rock gaúcho do curitibano Yanto Laitano, como acontece na canção Meu Amor, que não inclui o som das guitarras.



Meu Amor (Yanto Laitano)

Yanto Laitano tem composições em outras linhas de criação, além do rock, e não só na na área da música popular. Escreve trilhas sonoras para documentários, principalmente ligados a causas indígenas. Seus estudos e incursões em áreas da experimentação musical contemporânea o levaram a compor obras de maior rigor formal, ainda que algumas vezes inusitadas, como Peça para Cães Famintos, que apresentou com o grupo Ex-Machina.

O outro exemplo vem do Norte, com o rock da dupla paraense The Tump, banda montada com o credo "sem guitarristas". Além das vozes e contrabaixos do duo (Alex Lima e Bárbara Lobato), lançam mão de recursos eletrônicos, desde bateria programada até som de celular. Michê é um exemplo de seu eletrobass rock.



Michê (The Tump)

No limite, essas práticas podem levar a se ter dúvidas quanto ao enquadramento de uma composição em determinado gênero. E corre-se o risco de se deparar com alguns questionamentos que, a princípio, podem parecer inapropriados, quando não opiniões de quem não tem a menor noção. Como o personagem do Irmão Mais Novo, criado pelo mesmo Leonard Bernstein, citado há pouco.

O Irmão Mais Novo era um interlocutor que, por falta de conhecimento mais aprofundando de um assunto (no caso, música) fazia algumas perguntas "cretinas", Mas que, de alguma forma, sempre revelavam um ângulo crítico da questão, que permanecia velado, intocado. E assim, no fundo, o Irmão Mais Novo acabava pondo o dedo na ferida.

Então, vai aqui uma questão típica de Irmão Mais Novo. Em 1978, Chico Buarque compôs a canção Até o Fim, que traz o piano numa levada semelhante ao que Yanto Laitano faz em Meu Amor. O resultado é um gênero ambíguo que parece transitar entre os campos da síncope africana e do rock. Se pende mais para o lado da MPB é algo que pode ser creditado mais ao histórico do compositor do que à composição em si. É ouvir e pensar um pouco, de ouvidos abertos..

 
Até o Fim (Chico Buarque)

CARTA DE INTENÇÕES

Este espaço foi criado em concordância com as seguintes intenções, expectativas e condições:

1 - Reunir materiais e informações sobre música brasileira autoral, criada e produzida mediante processos de derivação econômica e artística. 

2 - Entenda-se por derivação econômica a utilização de meios de produção, divulgação e distribuição de obras musicais em que o autor participe com razoável grau de autonomia e decisão do processo econômico e mercadológico. É o que se pretende significar pelo uso da palavra "independente".

3 - Entenda-se por derivação artística o desenvolvimento, por esses meios, de obras musicais que contenham elementos significativos de diversificação e inovação nos cenários culturais em que se inserem. É o que se pretende significar pelo uso da palavra "alternativa".

4 - Os dois termos acima, bem como os conceitos encerrados nas palavras "música" e "brasileira", que completam o título deste espaço, devem ser e serão objeto permanente de reflexões nas postagens aqui publicadas, para que o conteúdo veiculado não resulte restrito a interpretações segmentadas da realidade musical.

5 - A divulgação será sempre acompanhada de textos críticos e analíticos, com o intuito de encontrar aspectos confluentes que permitam encaminhar uma percepção abrangente dos fenômenos musicais dentro dos múltiplos cenários culturais do país. 


6 - O conteúdo resultante poderá ser utilizado como fonte para ampliação e atualização de texto escrito pelo criador e administrador do espaço, publicado pela Editora Brasiliense em 1988 (História da Música Independente, coleção Tudo é História n. 124). 

7 - Embora o projeto tenha o formato livro como modelo formal, não se assume qualquer compromisso quanto à sua concretização nesse formato. A iniciativa, que vem sendo desenvolvida desde fins dos anos 1990, não tem prazo estipulado de finalização nem vínculo editorial com qualquer empresa do ramo. A propósito, tendo em vista a dinâmica econômica e cultural da realidade musical, após o advento das mídias digitais, especialmente da comunicação em rede via internet, o modelo ideal no momento parece ser o de um texto em constante reelaboração.